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Equidade & Justiça Social

Raça, clima e justiça: por que essas agendas não podem mais caminhar separadas?

Raça, clima e justiça: por que essas agendas não podem mais caminhar separadas?

Raça, clima e justiça: por que essas agendas não podem mais caminhar separadas?

Experiências no Amapá mostram como desigualdades históricas de acesso a saneamento, território, alimentação e trabalho também determinam quem está mais exposto à crise climática.

Rio de Janeiro, 01 de setembro de 2026 – Os efeitos das mudanças climáticas não se distribuem igualmente pela população brasileira. Enchentes, calor extremo, falta de saneamento, insegurança alimentar e perda de territórios atingem um país no qual desigualdades raciais, econômicas e territoriais já determinam quem tem maior acesso a infraestrutura, serviços públicos e condições de proteção.

Os dados sobre saneamento entre a população quilombola mostram parte dessa desigualdade. Dados do Censo Demográfico 2022, divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2025, mostram que 78,93% dos 1,3 milhão de quilombolas residentes em domicílios particulares permanentes conviviam com pelo menos uma forma de precariedade relacionada ao abastecimento de água, à destinação do esgoto ou à coleta de lixo. Nas áreas rurais, esse percentual chegava a 94,62%. Entre os moradores de Territórios Quilombolas oficialmente delimitados, 90,02% conviviam com pelo menos uma dessas formas de precariedade.

É nesse encontro entre desigualdade racial, condições ambientais e acesso a direitos que se insere o debate sobre racismo ambiental.

O conceito ganhou projeção a partir do movimento por justiça ambiental nos Estados Unidos, quando comunidades negras passaram a denunciar a concentração de atividades poluentes e resíduos perigosos em seus territórios. Um dos episódios que se tornaram referência ocorreu em Warren County, na Carolina do Norte, em 1982, durante protestos contra a instalação de um aterro destinado a receber solo contaminado por PCB.

No Brasil, o debate assumiu características próprias. A exposição desigual aos riscos ambientais está relacionada também ao acesso a saneamento, água, moradia adequada, infraestrutura urbana, segurança territorial e serviços públicos. Com o avanço das mudanças climáticas, desigualdades históricas passam a interferir diretamente na capacidade de diferentes grupos de enfrentar eventos extremos.

Quando o risco climático encontra a desigualdade

Em agosto de 2026, parte dessas questões esteve em discussão em Macapá, durante a quinta edição do Festival Amazônia Terra Preta, realizado pelo Instituto Mapinguari, em articulação com movimentos sociais amazônicos e apoio do Instituto Clima e Sociedade - iCS.

Durante três dias, representantes de comunidades indígenas e quilombolas, moradores de periferias, organizações sociais, pesquisadores, artistas e jovens discutiram racismo ambiental, perdas e danos, soberania alimentar, adaptação climática, transição justa e participação política.

O tema escolhido para a edição, “A periferia sente, a periferia cobra: incidência política para ação climática”, sintetizou uma discussão que atravessou diferentes mesas do encontro: a crise climática não produz seus efeitos sobre territórios socialmente iguais.

Em Macapá, essa diferença pode ser observada nas áreas de baixada e ressaca, onde problemas históricos de infraestrutura e saneamento se somam à exposição aos eventos climáticos.

Durante o festival, participantes relataram situações de esgoto chegando às casas, resíduos acumulados nos canais e convivência com ratos, cobras e doenças transmitidas por mosquitos. O professor Marcos Chagas, da Universidade Federal do Amapá (UNIFAP) relacionou essas condições à forma como a população negra ocupou historicamente o espaço urbano e às desigualdades que permaneceram na organização das cidades.

O calor extremo apareceu como outro exemplo. A temperatura pode ser a mesma para uma cidade inteira, mas as condições para enfrentá-la não são. Enquanto uma parcela da população tem acesso a ambientes climatizados, moradores de áreas periféricas podem depender de ventiladores e viver em casas com condições menos adequadas de ventilação e conforto térmico.

A exposição também está relacionada ao trabalho. Uma das jovens participantes relatou que o pai trabalha em uma jornada 6x1 pavimentando ruas sob altas temperaturas e sem acesso adequado sequer a protetor solar.

São exemplos cotidianos de uma questão maior: uma mesma enchente, onda de calor ou período de seca não afeta todas as pessoas da mesma forma. Embora os eventos climáticos possam atingir uma cidade inteira, seus impactos são desiguais e dependem das condições de moradia e renda, do acesso a serviços públicos e infraestrutura e das características dos territórios onde vivem as populações mais expostas.

Saneamento também é uma questão climática

No Amapá, as condições de saneamento das comunidades quilombolas ajudam a tornar essa relação mais concreta. O Censo Demográfico de 2022 (IBGE) identificou 95 localidades quilombolas no estado, associadas a 72 comunidades declaradas. Macapá concentra 56 dessas localidades.

É nesse contexto que experiências locais de saneamento ganham relevância também para o debate sobre adaptação climática. Um exemplo em Macapá se dá na Vila do Carmo do Maruanum, uma iniciativa da organização Utopia Negra Amapaense, que partiu de um problema básico: o tratamento do esgoto. Entre julho de 2024 e agosto de 2025, o projeto Quilombo Vivo instalou uma fossa séptica biodigestora na Escola Quilombola Raimundo Pereira. A intervenção, foi acompanhada por atividades de formação sobre mudanças climáticas, racismo ambiental, adaptação climática, organização comunitária e saneamento.

A estimativa inicial era de impacto direto sobre aproximadamente 400 alunos. Em visita realizada em agosto de 2026, quase um ano depois do encerramento formal do projeto, o gestor da escola, Valdemyr Barbosa da Silva, informou que a estrutura continuava em funcionamento e estimou que cerca de 700 pessoas utilizavam diariamente o espaço, incluindo, além dos estudantes da escola, universitários e moradores da comunidade. O número é uma estimativa do gestor e não corresponde a uma medição da capacidade técnica do sistema.

A experiência envolveu ainda sete formações, com cerca de 180 participantes. Representantes das 16 vilas do Quilombo do Maruanum estiveram presentes em alguma das atividades e 16 participantes alcançaram mais de 75% de aproveitamento no curso de letramento climático.

A tecnologia instalada não representa uma solução integral para o saneamento. A fossa biodigestora trata as chamadas águas negras, provenientes dos vasos sanitários. Outras dimensões, como abastecimento de água, resíduos sólidos, drenagem e tratamento das águas de banho, pias e lavagem, exigem soluções complementares; porém o caso ajuda a mostrar como saneamento e adaptação climática podem fazer parte da mesma discussão.

O próprio Plano Clima Adaptação reconhece essa relação. O Plano Temático de Povos e Comunidades Tradicionais estabelece como uma de suas metas garantir acesso a água potável e saneamento básico em 50% das comunidades e territórios de Povos e Comunidades Tradicionais até 2035. Entre as ações previstas está a implementação de tecnologias sociais adaptativas à mudança do clima.

Já o Plano Temático de Igualdade Racial e Combate ao Racismo reconhece que desigualdades no acesso à água tratada, ao saneamento básico e a outros serviços essenciais ampliam a vulnerabilidade da população negra diante dos riscos climáticos.

Quem participa das decisões sobre adaptação?

A relação entre clima e desigualdade racial não termina na identificação de quem está mais exposto. Ela também envolve a participação na definição das respostas.

Esse foi um dos temas recorrentes nas discussões realizadas no Festival Amazônia Terra Preta. Agricultores familiares, comunidades tradicionais, povos indígenas e moradores de periferias acumulam conhecimentos sobre os territórios onde vivem, acompanham mudanças nos ciclos ambientais e desenvolvem estratégias próprias de produção, organização e proteção.

A discussão coloca em questão modelos de adaptação formulados sem participação efetiva das populações diretamente afetadas. Quem define quais são as prioridades de adaptação? Quem participa da elaboração das políticas? Quais conhecimentos são considerados? E quem ocupa os espaços onde recursos e investimentos são decididos?

A liderança indígena Luene Karipuna defendeu, durante o festival, uma concepção de desenvolvimento baseada na manutenção da floresta em pé e no reconhecimento dos conhecimentos tradicionais como tecnologia.

A discussão amplia o significado de adaptação. Além de infraestrutura e recursos financeiros, ela envolve participação social, reconhecimento de conhecimentos locais e capacidade de influência sobre políticas que afetam diretamente os territórios.

No Bailique, perdas que vão além do patrimônio

No Arquipélago do Bailique, na foz do Amazonas, o debate sobre perdas e danos trouxe outra dimensão dos impactos ambientais.

Comunidades da região convivem com as chamadas “terras caídas”, fenômeno de erosão das margens que pode destruir casas e levar ao deslocamento de famílias. Durante as discussões, moradores e lideranças também relataram mudanças percebidas na dinâmica das águas, avanço da salinização e impactos sobre atividades produtivas.

Os relatos mostram por que a discussão internacional sobre perdas e danos vai além do cálculo do patrimônio destruído. Quando uma família perde uma casa ou precisa deixar o lugar onde vive, também podem ser afetados vínculos comunitários, modos de produção, relações culturais e referências construídas durante gerações.

Ao mesmo tempo, os participantes chamaram atenção para os desafios de estabelecer tecnicamente as causas das transformações ambientais observadas. Sem estudos capazes de demonstrar relações entre intervenções específicas e os impactos registrados pelas comunidades, tornam-se mais difíceis a responsabilização e a reivindicação de reparações.

O clima chega também pela comida

A alimentação foi outro tema usado para discutir a relação entre desigualdade racial e mudanças climáticas.

Fran Paula, da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ), utilizou durante o festival a expressão “racismo alimentar” ao tratar das barreiras que afastam populações negras e tradicionais de alimentos historicamente presentes em seus territórios.

O açaí foi citado como exemplo. Produto central na alimentação amazônica, sua valorização comercial pode significar aumento de preço e redução do acesso para as próprias populações locais. Ao mesmo tempo, produtos ultraprocessados mais baratos passam a ocupar maior espaço na alimentação cotidiana.

A questão se conecta às condições de produção. Queimadas, alterações nos ciclos ambientais, dificuldades de transporte e perda de áreas produtivas afetam comunidades que dependem diretamente do território para produzir alimentos. Talita Alves, da comunidade Ponta do Socorro, relatou durante o encontro impactos das queimadas sobre os cultivos e dificuldades enfrentadas pelos produtores locais. Nesse contexto, soberania alimentar e agroecologia passaram a ser discutidas como componentes da adaptação climática.

A ativista Janayna Rodrigues resumiu a dimensão política dessa discussão com uma provocação apresentada durante o encontro: “Agroecologia sem luta de classes é jardinagem.” A frase foi usada para questionar abordagens que tratam a produção sustentável apenas como mudança de comportamento individual, sem considerar acesso à terra, renda, condições de produção e desigualdades territoriais.

Transição energética não significa automaticamente transição justa

A desigualdade também atravessa o debate sobre a transformação da matriz energética. Reduzir o uso de combustíveis fósseis é uma das principais respostas globais à mudança do clima. Mas substituir fontes de energia não determina, por si só, como os benefícios e custos dessa transformação serão distribuídos.

No festival, as discussões sobre transição justa passaram pela exploração de petróleo na Foz do Amazonas, pela criação de empregos verdes e pelo papel das populações amazônicas nas decisões sobre o desenvolvimento da região.

Julia Stefany, analista de Políticas Climáticas e Mercados de Carbono da organização LACLIMA, chamou atenção para a necessidade de compreender a transição justa para além do setor energético, considerando seus efeitos sobre a economia e sobre diferentes grupos sociais. Já Kimberly Silva, vice-presidente da Palmares Laboratório-Ação (Palmares Lab), destacou a necessidade de incorporar uma perspectiva antirracista à formalização e ao acesso aos empregos verdes.

A questão é relevante porque uma economia de baixo carbono pode continuar reproduzindo desigualdades existentes. Se trabalhadores negros continuarem concentrados nos postos mais precários e menos remunerados, enquanto empregos qualificados e espaços de decisão permanecem pouco diversos, a redução das emissões não será acompanhada necessariamente por maior equidade. A transição justa envolve, portanto, não apenas a fonte da energia, mas também trabalho, renda, formação profissional, participação e distribuição de oportunidades.

O papel das instituições

A relação entre clima e raça também exige olhar para as organizações que formulam, financiam e executam ações climáticas.

O letramento racial é uma ferramenta importante, mas ações de sensibilização não substituem mudanças nas práticas institucionais. Contratação, promoção, remuneração, presença em cargos de liderança, distribuição de oportunidades e participação nos processos decisórios são dimensões concretas da equidade.

Há também uma questão sobre quem assume a responsabilidade pelo aprendizado racial. Quando pessoas negras são chamadas repetidamente a relatar experiências de discriminação para explicar o funcionamento do racismo, a própria estratégia de conscientização pode produzir desgaste e revitimização. O enfrentamento ao racismo pressupõe corresponsabilidade e exige que pessoas e instituições revejam práticas, critérios e privilégios que muitas vezes operam de maneira pouco explícita.

Essa discussão é especialmente importante para organizações que trabalham com a agenda climática. Não basta incorporar raça como tema de projetos destinados a populações vulnerabilizadas. É preciso observar também quem fórmula estratégias, quem administra recursos, quem ocupa posições de liderança e quais atores participam das decisões.

Autores: Adriano Andrade, Carlos Thadeu, Hannah Balieiro, Mariana Guimarães dos Santos e Yakini Tavares que integram o Núcleo Marielle Franco do Instituto Clima e Sociedade - iCS

Sobre o Núcleo Marielle Franco:
Criado em maio de 2018, o Núcleo Marielle Franco é um espaço do Instituto Clima e Sociedade dedicado à reflexão e à promoção de práticas antirracistas, com atuação voltada à cultura organizacional e ao campo de organizações e instituições com as quais o iCS se relaciona. Acesse o site: https://climaesociedade.org/nucleo-marielle-franco/

Contato:
nmf@climaesociedade.org

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